Papo de Botequim


Eu não sou orgulho nem princípios, só vontade e raciocínio. No pára-brisa molhado eu vejo borrar a maquiagem da cidade, eu vejo as gotas maltratarem o trânsito e as coisas se tornam lindamente mais feias, eu gosto de coisas bonitas e coisas feias são estranhamente lindas dentro de contexto. Eu gosto de pertencer a alguém ou a algo que valha, mas hoje em dia quem não vale sou eu, sou só e sem seres-humanos, portanto não valho nem pra ser humano, sou rocha, sou promessas, eu sou uma estante de livros não lidos, de discos não ouvidos e de filmes não vistos, eu não sou a mosca que pousará em sua sopa, eu sou pura mansidão, sou água cristalina e eu, definitivamente, não tenho Jesus no coração. Não ouvirão falar de mim, sequer lerão coisas minhas nos jornais, nas bibliotecas ou nos noticiários locais, meu nome não será adjetivo, eu não serei feriado, meu corpo não será visitado e quando minha estadia acabar os rios não se encherão e o transito não ficará caótico. Meu comprimido é de ASD, e que seja num céu com diamantes pois na terra com pedregulhos eu carrego uma cruz maior que meu tronco, eu carrego um peso perdido nos buracos do meu cinto, eu suprimo uma tristeza subjetiva em prol de um alguém maior, de qualquer alguém maior, de qualquer. A vida é feita de relacionamentos que nunca darão em nada, especialmente a relação que eu tenho comigo mesmo. A vida se resume às experiências que você conta, pois erudição e conhecimento geral são provas de anarquia passional, mas ninguém sai vivo do corpo, seja ele qual for, ninguém sobrevive ao apocalipse, e que ele chegue logo e o anjo da luz me leve pra um lugar melhor onde eu nunca terei existido. Onde minha experiência não fará sentido e minhas habilidades não façam diferença. Pra dentro do sol, de cara amarrada, sangue nas veias e nos pulmões, focos malignos, uma força estranha que me arrasta pra uma certeza terrível. E essa irritação que hoje é pressão e negócio se transforme em uma paz cristalina, inexistente, que seja só despressurização e ócio, que seja cerveja e água com gás, que seja chocolate e que seja sem sentido para que não faça questão de entender, é tudo confuso, é tudo desculpa pra não dizer o inegável “não gosto”, é tudo racionalmente pensado pra dizer que foi de ultima hora, é tudo transitivo direto e os pronomes “eu” e “tu” serão sempre muito mais importantes e preponderantes que o “nós”. É fácil ser forte quando se sabe onde a bala irá atingir, o difícil é levar um tiro no olho e ter que enxergar tudo com clareza, o difícil é quando os jogadores insistem em espalhar pistas erradas e cascas de banana num chão liso. E eles nem querem, e eu nem quero mais, respirar dói, começa na garanta e vai até o esôfago, e o soluço que antecede o choro é como o botão que abre a barragem, e o travesseiro só nos conta mentiras e as mentiras só nos fazem chorar, o chorar nós faz implorar e implorando é que ganhamos distância, ou perdemos proximidade, tanto faz agora, a frase não precisa ser a correta pra se entender o sentido que se quer dar, não depois de uma página de lamentos, agora tanto faz a palavra que se use, elas não são mais espelhos, a essa altura são somente ratificações, já fiz a cabeça de quem chegou até aqui, aqui todos concordam comigo, aqui todos me dão tapinhas nas costas e todos acreditam que vai dar certo, só não sabem todos que não é nada disso que um lunático quer, eu não tenho uma vida inteira, eu tenho vinte e um anos, é tudo que eu quero e ninguém me garante que será muito mais que isso, só tem poder quem sabe aonde quer chegar, ninguém sabe aonde quer chegar, ninguém sabe tudo da vida e se soubessem prefeririam nem ouvir o tiro de largada, de resto só crenças em pessoas e votos depositados em urnas de carne, veias e sangue, acreditem, o amor não vem do coração, ele existe, mas não passa de uma sinapse neuroquímica, e o coração é feio, disforme e nojento, parece uma mão fechada e sem pele, é nisso que eu penso quando as pessoas dizem que eu moro lá, num bolo de carne que mantém vivos esses futuros mortos de hoje, essas futuras mentiras de amanhã. Todos mentem, eu não acredito mais em promessas.



Escrito por Pedro Lacerda Lopes às 00h37
[   ] [ envie esta mensagem ]


[ ver mensagens anteriores ]


 



Meu perfil
BRASIL, Sudeste, Homem, de 15 a 19 anos, Portuguese, English, Cinema e vídeo, Livros
Histórico
  18/10/2009 a 24/10/2009
  01/03/2009 a 07/03/2009
  01/02/2009 a 07/02/2009
  26/10/2008 a 01/11/2008
  14/09/2008 a 20/09/2008
  09/12/2007 a 15/12/2007
  02/12/2007 a 08/12/2007
  02/09/2007 a 08/09/2007
  08/07/2007 a 14/07/2007
  20/05/2007 a 26/05/2007
  01/04/2007 a 07/04/2007
  04/03/2007 a 10/03/2007
  11/02/2007 a 17/02/2007
  04/02/2007 a 10/02/2007
  28/01/2007 a 03/02/2007
  21/01/2007 a 27/01/2007
  14/01/2007 a 20/01/2007
  07/01/2007 a 13/01/2007
  24/12/2006 a 30/12/2006
  17/12/2006 a 23/12/2006
  10/12/2006 a 16/12/2006
  03/12/2006 a 09/12/2006
  26/11/2006 a 02/12/2006
  19/11/2006 a 25/11/2006
  15/10/2006 a 21/10/2006
  08/10/2006 a 14/10/2006
  01/10/2006 a 07/10/2006
  24/09/2006 a 30/09/2006
  10/09/2006 a 16/09/2006
  03/09/2006 a 09/09/2006
  27/08/2006 a 02/09/2006
  20/08/2006 a 26/08/2006
  13/08/2006 a 19/08/2006
  06/08/2006 a 12/08/2006
  30/07/2006 a 05/08/2006
  23/07/2006 a 29/07/2006
  16/07/2006 a 22/07/2006
  09/07/2006 a 15/07/2006
  02/07/2006 a 08/07/2006
  25/06/2006 a 01/07/2006
  14/05/2006 a 20/05/2006


Outros sites
  Apoema - Fotolog de Giovanna Sapienza
  Fotolog do Sidnei de Caria
  Blog do Sidnei de Caria
  Meu Fotoblog
  Capeta Time Remember
Votação
  Dê uma nota para meu blog