Papo de Botequim


O fim do diálogo anterior.

- Eu tava pensando... E descobri que eu não sei mais o que eu quero. Eu não sei se eu quero mais o seu querer.

- Você pensou muito pra me dizer isso?

- Claro

- Tem certeza?

- Você não vê os meus olhos inchados?

- Sim, mas...

- Eu não dormi ontem.

- Você passou a noite em claro, pensando, e só me diz isso?

- Você queria mais o que?

- Argumentos?

- Argumentos... Certo, eu não te amo mais.

- Você nunca me amou. Eu não te culpo por isso.

- Você me amou?

- Claro que não, eu tenho 18 anos.

- Então pra você ta tudo bem?

- Não. Realmente é triste, eu to triste, mas eu vou sobreviver.

- Sabia que eu estava triste? Mas fiquei muito mais agora, com essa sua reação. Eu não esperava.

- Claro que não, você esperava lamúrias, gritos, pedidos de reconciliação, não é o que você escutou e agora ficou triste por isso né?

- Custava resistir um pouco a minha decisão, valorizar a nossa relação?

- Valorizar o seu ego é o que você quer dizer, minha reação fez muito mal pro seu ego não é? Estamos na melhor fase da vida, estamos no começo da vida, e desiludir-se por uma relação fracassada não é a melhor idéia, eu garanto.

- Fracassada?

- Fracassado agora, não no começo.

- Começo, você gosta do começo, se estamos no começo da vida então você devia aproveitá-la com mais intensidade.

- Eu vivo com mais intensidade, por isso eu sou assim.

- Você não entendeu o que eu disse...

- Eu entendi sim. Viver com intensidade pra você é levar as coisas mais a sério, talvez até se importar um pouco mais com os outros, isso ai é viver com responsabilidade, e sua responsabilidade juvenil vai até onde os problemas começam, ai ressurge aquela velha manha psicológica que nós temos.

- Então é isso que nós somos? Como cachorros domésticos, que vivem tentando fugir de casa e que depois que fogem não ficam quinze minutos nas ruas até voltar pra casa, com o rabo entre as pernas?

- Agora você me entendeu. Agente precisa tomar umas porradas pra entender.

- A melhor coisa que eu tenho é minha juventude, é meu jeito de ser, é tudo o que eu tenho, e você diz que minhas atitudes estão erradas.

- Não estão erradas, você só não descobriu ainda o poder e a beleza da sua juventude.

- Digamos então, por assim dizer, que tudo o que agente passou foi um erro, desculpa informar, mas você errou também e errou feio.

- Eu não digo que foi um erro, foi algo que eu, e quando eu digo “eu” eu digo “nós”, tivemos que passar pra chegar onde estamos, o que agente tem que ter é consciência de que isso tudo faz parte de um processo inconsciente, eu só o trouxe pra realidade.

- Eu fui uma parte de um processo?

- Você foi um dos momentos mais maravilhosos da minha vida, mas como tudo na vida um dia acaba, esse momento acabou, e vivendo intensamente como eu vivo, eu não vou ficar preocupado em derramar lágrimas, o máximo que eu posso fazer é lhe agradecer, lhe desejar felicidades e que seja meu amigo.

 - Sua sentimentalidade racional me irrita.



Escrito por Pedro Lacerda Lopes às 22h58
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Carta a alguem com um belo nome.

(belo nome).

             Sei que é difícil entendermos a nós mesmos, tentarei lhe dizer algumas palavras para te ajudar nessa busca interminável pelo auto-conhecimento, tentarei.

Descobri que sou melhor com a escrita do que com as palavras ditas, estas últimas simplesmente me abandonam sempre que ás busco, difícil de mais é lidar com isso, e sempre me frustrar, para que este não mais ocorra, então escrevo, peço, então, desculpas por evitar o confronto direto, saiba que não é covardia, é terapia. Não fujo das minhas obrigações e responsabilidades, mas é que este sentimento (sinceridade) eu ainda não consegui controlar, então eu busco na escrita o remédio para a minha passividade. Sim, sou passivo, não sei agir, e a causa deste problema eu busco responder nas minhas visitas a Dra. Neuza, pelo menos ela não é jocosa em relação as minhas palavras (espero que você também não seja, com este que lê).

Mas enfim, eu me proponho á sinceridade e á religiosidade, de antemão lhe explico para que não me interprete mal.

Eu não gosto de falar do passado, apenas de história, para eu me sentir mais á vontade, darei o nome de história ao meu passado, minha história. E minha história começou a mudar quando eu entrei naquela escola, nessa, que freqüento até hoje, e lá eu senti duas sensações que me marcaram, por senti-las em um ambiente tão novo. A primeira se trata de longuíssimo prazo, que é a de aprender, aprender com os outros, aprender com a vida, nesses anos pra cá, posso afirmar categoricamente que o Sidnei e o Diego foram uns dos meus maiores professores, diria mais, meus libertadores de um mundo só. É verdade, eles me ajudaram de uma maneira que nem eles mesmos imaginam, á eles devo longuíssimos agradecimentos, até hoje, passar onze horas por dia aos seus lados tem sido de um prazer enorme, e mais ainda, de um aprendizado enorme. Mas o outro sentimento que me impressionou, foi a atração, de pensar em alguém durante um bom tempo do meu dia, de poder imaginar momentos felizes, de poder até sentir... Sabe essas paixões bobas e colegiais? Sabe essas frescuras que constroem o caráter de alguém? Será que entende o que eu sentia por você? Isso mesmo, por você, mas uma coisa que eu sabia, e sei, é não demonstrar meus sentimentos, é característica da minha passividade, ser apenas mais um, é isso que eu penso, e sem querer aparecer eu me prendi no meu mundo e não me permiti o benefício da dúvida, não olhei em teus olhos, não lhe escrevi nem meias palavras, foi tudo muito rápido, e tudo passou, como se passa tudo na vida, passou. Agora lhe apresento um bom argumento, de um especialista, pode sentir a mais dura e fúnebre mágoa, o passar dos dias nos faz entreter e esquecer dos sentimentos mais belos aos mais tristes, eu bem sei esperar, tanto espero em ser algo que me tornei uma pessoa ansiosa para as coisas mesquinhas, o contraponto. Mas de fato o tempo passa e você nem percebe, só percebe quando de novo eu vejo a angustia, o medo e tudo de novo, alguém de novo. Isso não me ocorre com freqüência, eu controlo meus sentimentos. Mas, de que adianta o controle se não á ação. Eu peço desculpas por insistir na mesma tecla, más é que para muitos falta jeito, para mim falta ação ( para tentar concertar isso, escrevo esta), e nesta inércia reside minha maior frustração. Pense rápido, aja rápido, sempre e em tudo. Um conselho de quem aprendeu com os erros, mas sempre comete os mesmos erros. Na vida podemos falar, ou escrever, mas precisamos sempre enviar.

Confesso (hoje confessarei todos os meus crimes) que quando me vi seu amigo, depois de tanto tempo, me senti “balançado”, mas eu controlo meus sentimentos, e eu tento ser um sujeito respeitoso, ás vezes até de mais, respeito até o direito dos outros não me respeitarem. Então eu me vi tendo que engolir, de novo, a mesma angustia, dessa vez foi fácil, foi simples, treinado que sou... Cometer um erro é aceitável, infelizmente somos imperfeitos, cometê-lo de novo só tem duas explicações, ou não se aprendeu direito, ou somos burros. Eu sou burro. Perco-me em meus pensamentos e, valha Deus, só agora eu tive a idéia de transpô-los pro papel, com o respaldo da minha psicóloga, que eu necessitava.

Nessa minha história, resumida nestas folhas, eu vejo o que passou e entendo que tudo, serve de aprendizado, para ser quem eu sou hoje, mais completo, mais corajoso e sempre burro. Trocar pessoas em nossas vidas é sensato, quando não temos pai buscamos a figura dele em outros, mas é certo que nunca conseguiremos de fato substituir alguém, talvez sequer esquecer, apenas aprendemos a conviver com a dor, e torná-la parte de nós mesmos. Na vida das minhas retinas fatigadas (com a licença poética) pelas pedras no caminho, aprende-se a chorar sorrindo, triste é o dia em que não teremos mais motivos pra chorar. Consequentemente, nem pra sorrir. O dia grandioso será aquele em que escrevendo eu aprenderei a falar. Nesse dia olharei em seus olhos e direi “obrigado” por fazer parte da minha vida. Eu te entendo, entendo como ninguém, entendo mesmo, se na vida é sempre mais fácil destruir do que construir, por que é tão fácil se apaixonar, e tão difícil desapaixonar? Eu controlo meus sentimentos na medida do possível, mas controlo as duras penas, é muito difícil. Mas enfim, a vida é um palco, á que se trocar a maquiagem o figurino e se preparar para o próximo ato, pois aqui não tem ensaio, vai à base do improviso mesmo, e nesse palco, nosso objetivo não é o Oscar ou o Tony, nesse palco buscamos apenas o final feliz.

Pedro Lacerda. (Nome que um dia será belo)

 

PS.: Não peço resposta, nem peço que me entenda, muito menos que se sinta responsável pelos sentimentos alheios. Peço apenas que leia, e se não gostar, devolva-me.   



Escrito por Pedro Lacerda Lopes às 22h56
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